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Contrato de Gaveta tem VALIDADE? Advogado imobiliĂĄrio explica

  • 27 de ago. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 12 de nov. de 2025

CONTRATO DE Gaveta

O contrato de gaveta é uma prĂĄtica muito comum no mercado imobiliĂĄrio brasileiro, especialmente em transaçÔes informais de compra e venda de imĂłveis. Ele Ă© celebrado apenas entre comprador e vendedor, sem registro em cartĂłrio. A grande dĂșvida que surge Ă© se esse contrato tem validade jurĂ­dica. A resposta Ă© sim, o contrato de gaveta possui plena validade entre as partes, desde que respeite os requisitos legais de qualquer contrato. No entanto, ele nĂŁo transfere a propriedade do imĂłvel, e isso gera consequĂȘncias importantes que o comprador precisa conhecer.


O que Ă© um contrato de gaveta

O contrato de gaveta Ă© um instrumento particular de compra e venda de imĂłvel feito diretamente entre as partes, sem escritura pĂșblica e sem registro no cartĂłrio de registro de imĂłveis. Ele contĂ©m as condiçÔes de negociação, preço, forma de pagamento, prazos e obrigaçÔes de cada parte.

Apesar de nĂŁo ser levado a registro, ele cria direitos e obrigaçÔes contratuais vĂĄlidos entre comprador e vendedor. Em outras palavras, o contrato de gaveta Ă© vĂĄlido entre as partes, mas ineficaz perante terceiros. Isso significa que, juridicamente, o comprador pode cobrar o cumprimento do contrato, mas nĂŁo pode registrar o imĂłvel em seu nome sem a escritura pĂșblica.


O que diz o CĂłdigo Civil sobre a validade dos contratos

O Código Civil estabelece regras gerais sobre a validade dos contratos. O artigo 104 dispÔe que:

“Art. 104. A validade do negócio jurídico requer: I - agente capaz; II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável; III - forma prescrita ou não defesa em lei.”

Assim, se o contrato de gaveta Ă© celebrado entre partes capazes, com objeto lĂ­cito e forma vĂĄlida, ele tem plena validade jurĂ­dica. Nenhum artigo do CĂłdigo Civil proĂ­be a existĂȘncia desse tipo de contrato. O que a lei exige, no entanto, Ă© que a transferĂȘncia da propriedade imobiliĂĄria sĂł ocorra mediante escritura pĂșblica registrada no cartĂłrio de registro de imĂłveis, conforme o artigo 1.245 do CĂłdigo Civil:

“Art. 1.245. Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do tĂ­tulo translativo no Registro de ImĂłveis. § 1Âș Enquanto nĂŁo se registrar o tĂ­tulo translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imĂłvel.”

Portanto, enquanto o contrato de gaveta nĂŁo for transformado em escritura e registrado, o imĂłvel continuarĂĄ em nome do vendedor, mesmo que o comprador jĂĄ tenha pago integralmente.


O contrato de gaveta tem validade jurĂ­dica?

Sim. O contrato de gaveta tem validade jurĂ­dica plena entre comprador e vendedor. Ele Ă© um contrato como qualquer outro e, portanto, produz efeitos obrigacionais. Isso significa que o comprador pode exigir judicialmente a entrega do imĂłvel, e o vendedor pode cobrar o pagamento, conforme o que foi pactuado.

Na pråtica, o contrato de gaveta gera obrigaçÔes, mas não altera o registro imobiliårio. Logo, o comprador não se torna proprietårio do imóvel perante terceiros.

Esse entendimento é pacífico nos tribunais. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece que o contrato particular de compra e venda gera efeitos entre as partes, mas não transfere a propriedade. O registro é o ato que confere o direito real.

Assim, embora o contrato seja vålido, ele não impede fraudes ou novas vendas a terceiros, o que representa o principal risco dessa modalidade.

Mas esse fato nĂŁo diminui sua importĂąncia. A escritura pĂșblica, alternativa a esse contrato, por si sĂł tambĂ©m nĂŁo transfere a propriedade, apenas o pedido de registro do ato na matrĂ­cula Ă© que tem esse poder.


O contrato de gaveta transfere a propriedade?

NĂŁo. O contrato de gaveta nĂŁo transfere a propriedade do imĂłvel. A propriedade sĂł Ă© transferida com a escritura pĂșblica registrada, conforme o artigo 1.245 do CĂłdigo Civil.

Esse ponto é fundamental. Mesmo que o comprador tenha pago o valor total e possua o contrato assinado, o vendedor continua como proprietårio até que ocorra o registro.

Isso significa que, juridicamente, o vendedor ainda pode alienar o imóvel a outra pessoa, mesmo jå tendo firmado o contrato de gaveta. Se o novo comprador registrar a escritura, ele serå o proprietårio legítimo, ainda que de boa-fé.


O risco de venda a terceiros de boa-fé

O maior problema do contrato de gaveta é o risco de o vendedor negociar o mesmo imóvel novamente com outro comprador. Como o contrato não foi registrado, o cartório não tem conhecimento da transação anterior.

Se um terceiro de boa-fĂ© comprar o imĂłvel e lavrar a escritura pĂșblica, o registro serĂĄ feito normalmente. O cartĂłrio nĂŁo pode impedir o registro, pois ele apenas verifica se o tĂ­tulo apresentado Ă© formalmente vĂĄlido.

Nessa hipótese, o comprador original poderå buscar a restituição judicial do valor pago e até pleitear a anulação da segunda venda, desde que consiga comprovar a anterioridade do contrato e a må-fé do vendedor. Contudo, o processo serå mais demorado e custoso.

Portanto, o contrato de gaveta não previne fraudes, apenas permite remediå-las judicialmente após o prejuízo.


Diferença entre contrato de gaveta e escritura pĂșblica

A escritura pĂșblica de compra e venda é o instrumento formal exigido por lei para transferir a propriedade de bens imĂłveis. Ela Ă© lavrada por tabeliĂŁo e registrada no cartĂłrio competente.

Jå o contrato de gaveta é apenas um acordo particular, vålido entre as partes, mas sem efeitos perante terceiros.

Em resumo:

  • O contrato de gaveta cria obrigaçÔes contratuais;

  • A escritura pĂșblica transfere a propriedade;

  • O registro no cartĂłrio de imĂłveis consolida a titularidade.

Sem a escritura pĂșblica, o comprador nĂŁo consegue obter financiamento, vender, doar ou hipotecar o imĂłvel, pois o bem continua registrado em nome do vendedor.

Entretanto a escritura pĂșblica Ă© muito mais resumida que um contrato de gaveta. Nela constarĂĄ apenas informaçÔes bĂĄsicas sobre a transação. JĂĄ o contrato de gaveta explicita cada mĂ­nimo detalhe da negociação.

Caso, por exemplo, as partes combinem que o imĂłvel estĂĄ em perfeito estado de conservação e que o vendedor se comprometerĂĄ a consertĂĄ-lo caso algum defeito surja em certo perĂ­odo de tempo, essa informação deverĂĄ constar no contrato de gaveta. A escritura pĂșblica nĂŁo se preocupa com essas obrigaçÔes secundĂĄrias.

Portanto, nesse exemplo, caso o defeito em questão surja e, por mais que as partes tenham combinado o reparo mas não fizeram contrato de gaveta, serå muito difícil exigir o cumprimento dessa obrigação na justiça.


Quando o contrato de gaveta Ă© necessĂĄrio?

O contrato de gaveta Ă© EXTREMAMENTE IMPORTANTE nos casos de compras e vendas de imĂłveis com pagamento parcelado. Essa Ă© a forma mais comum onde o contrato de gaveta Ă© empregado.

Outro uso habitual Ă© para quando o imĂłvel estĂĄ financiando, pois, assim como quando seu pagamento Ă© parcelado, a transferĂȘncia nĂŁo irĂĄ ocorrer imediatamente, mas sim apenas apĂłs a quitação do financiamento. Para que as partes do contrato nĂŁo fiquem sem qualquer resguardo jurĂ­dico o contrato de gaveta Ă© assinado estipulando os direitos e obrigaçÔes.

Logo, em negociaçÔes em que o imóvel é pago a vista, o contrato de gaveta não é necessårio. Mas em todas as outras situaçÔes ele é imprescindível.

HĂĄ tambĂ©m os casos em que a negociação Ă© bastante complexa e as partes assumem vĂĄrias obrigaçÔes acessĂłrias alĂ©m do pagamento do imĂłvel e transferĂȘncia do bem apĂłs a quitação. Em casos assim o contrato de gaveta, por ser muito mais completo que uma escritura pĂșblica, se faz muito necessĂĄrio.


O contrato de gaveta pode ser usado como prova judicial

Sim. O contrato de gaveta é prova vålida em processos judiciais. Ele pode ser usado para comprovar pagamentos, posse, obrigaçÔes descumpridas e outras situaçÔes contratuais.

Os tribunais reconhecem sua força probatĂłria, desde que esteja assinado pelas partes e contenha testemunhas. Isso Ă© suficiente para demonstrar a existĂȘncia da relação jurĂ­dica e permitir o ajuizamento de ação para exigir o cumprimento das obrigaçÔes assumidas.

O contrato de gaveta tem plenos efeitos entre as partes, assim como qualquer outro tipo de contrato. Ele nĂŁo Ă© um documento sem poder ou de validade questionĂĄvel como alguns textos dĂŁo a entender ao comparĂĄ-lo com a escritura pĂșblica. Ele tem tanto valor quanto um contrato de financiamento, contrato de locação, doação ou qualquer outro documento assinado pelas partes. Ele Ă© um dos documentos mais poderosos e importantes em todo direito brasileiro, levando em consideração o valor dos bens transacionados.

Portanto, ainda que o contrato não seja registrado, ele tem valor jurídico e pode ser utilizado em juízo para proteger os direitos do comprador.


BenefĂ­cios do contrato de gaveta

Apesar dos riscos, o contrato de gaveta possui alguns benefĂ­cios prĂĄticos. Ele Ă© menos burocrĂĄtico, pois dispensa a lavratura de escritura pĂșblica e o registro em cartĂłrio.

Além disso, é mais econÎmico, jå que evita o pagamento de custas cartorårias e impostos no momento da assinatura. Em muitos casos, é confeccionado por um advogado especializado, o que garante maior segurança jurídica.

Outro ponto favorĂĄvel Ă© que o contrato de gaveta costuma ser mais completo que uma escritura pĂșblica. Enquanto a escritura se limita Ă s informaçÔes essenciais da transação, o contrato particular pode detalhar todas as condiçÔes, como forma de pagamento, estado do imĂłvel, juros, multas, prazos e obrigaçÔes acessĂłrias.

Em mĂ©dia, uma escritura pĂșblica tem poucas pĂĄginas e se restringe ao essencial, enquanto um contrato de gaveta pode conter clĂĄusulas minuciosas que refletem com precisĂŁo a vontade das partes.


Quando o contrato de gaveta Ă© mais usado?

Esse tipo de contrato é comum em situaçÔes em que as partes desejam formalizar rapidamente a negociação, sem enfrentar a burocracia cartoråria. Ele também é usado quando o imóvel ainda não pode ser transferido, como nos casos de financiamento em andamento, pagamento parcelado, imóvel em inventårio ou pendente de regularização.

Em tais hipĂłteses, o comprador e o vendedor firmam o contrato de gaveta como garantia da transação, atĂ© que seja possĂ­vel formalizar a transferĂȘncia definitiva. ApĂłs a quitação do imĂłvel a escritura pĂșblica serĂĄ feita e o imĂłvel transferido ao seu novo dono.


Como evitar riscos ao fazer um contrato de gaveta?

Embora o contrato de gaveta tenha validade, o ideal Ă© que ele seja elaborado com assistĂȘncia de um advogado imobiliĂĄrio. O profissional pode redigir clĂĄusulas que protejam o comprador contra riscos, prever penalidades e garantir meios de prova eficazes.

De nada adianta um contrato mal feito que não garante seus direitos e especifica as obrigaçÔes de forma clara e correta.

Além disso, é recomendåvel que o comprador pesquise a matrícula do imóvel antes da assinatura. A consulta à matrícula revela se hå Înus, dívidas, penhoras ou gravames.

Outra medida de segurança Ă© lavrar posteriormente a escritura pĂșblica quando as condiçÔes permitirem. Dessa forma, o contrato de gaveta servirĂĄ como base para a formalização definitiva da propriedade.


O que fazer se o vendedor nĂŁo cumprir o contrato

Se o vendedor descumprir o contrato de gaveta, o comprador pode ajuizar ação judicial para exigir o cumprimento das obrigaçÔes, como entrega do imóvel, restituição de valores ou indenização por perdas e danos.

O artigo 475 do Código Civil garante esse direito:

“Art. 475. A parte lesada pelo inadimplemento pode pedir a resolução do contrato, se não preferir exigir-lhe o cumprimento, cabendo, em qualquer dos casos, indenização por perdas e danos.”

Assim, o contrato de gaveta confere direito de ação às partes, mesmo que não tenha sido registrado.


Posse e usucapiĂŁo em contratos de gaveta

Em alguns casos, o comprador que firmou contrato de gaveta e exerce a posse do imóvel por longo período pode buscar o reconhecimento da propriedade por usucapião.

A jurisprudĂȘncia do STJ admite essa possibilidade, desde que o possuidor demonstre posse mansa, pacĂ­fica, contĂ­nua e com intenção de dono.

Nessas hipóteses, o contrato de gaveta serve como prova muito forte da posse e pode facilitar a regularização do imóvel por meio da ação de usucapião extrajudicial ou judicial, inclusive diminuindo o prazo exigido para que a Usucapião seja declarada.


ConclusĂŁo

O contrato de gaveta é vålido e eficaz entre as partes, mas não transfere a propriedade do imóvel. Ele cria direitos e obrigaçÔes, permite o cumprimento judicial e serve como prova. No entanto, não impede fraudes nem protege contra terceiros de boa-fé, jå que o imóvel continua registrado em nome do vendedor.

A propriedade de um imĂłvel sĂł Ă© transferida com a escritura pĂșblica registrada no cartĂłrio de imĂłveis. Assim, quem possui contrato de gaveta deve compreender que possui direitos contratuais, mas nĂŁo reais sobre o bem.

Apesar dos riscos, o contrato de gaveta pode ser uma alternativa temporĂĄria e Ăștil, desde que redigido por um advogado especialista e acompanhado de todas as precauçÔes possĂ­veis.

Ele é extremamente importante em casos em que o imóvel é pago de forma parcelada, financiado ou a negociação é muito complexa.

Em resumo, ele Ă© vĂĄlido, mas incompleto. Garante obrigaçÔes, mas nĂŁo propriedade. É seguro se bem elaborado, mas perigoso se feito sem orientação jurĂ­dica. Conhecer esses limites Ă© essencial para evitar prejuĂ­zos e garantir segurança nas transaçÔes imobiliĂĄrias.

Para ler mais artigos como esse, acesse nosso site oficial: Thales de Menezes

Advogado ImobiliĂĄrio em GoiĂąnia

Thales de Menezes, advogado imobiliĂĄrio em GoiĂąnia (GO)

 
 

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